Departamento de Geociências
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Percorrer Departamento de Geociências por assunto "Água mineral"
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- Geochemistry of mineral waters in Furnas Volcano (São Miguel, Azores): source and fluxes of metal ions and 87Sr/86Sr ratiosPublication . Ferreira, Letícia Resende; Cruz, José Virgílio de Matos Figueira; Viveiros, Maria de Fátima Batista; Durães, Nuno Miguel dos SantosO Arquipélago dos Açores encontra-se situado no Atlântico Norte, na proximidade da junção tripla das placas litosféricas Euroasiática, Núbia e Norte Americana, originando um contexto geológico, hidrológico e hidrogeoquímico único. A configuração geológica complexa da região é evidenciada por uma atividade sísmica e vulcânica significativa, acompanhada por diversas manifestações secundárias de vulcanismo, observadas em várias ilhas, tais como campos fumarólicos, nascentes de águas termais e/ou ricas em CO₂, bem como desgaseificação difusa a partir de solos e de massas de água de superfície. O arquipélago é abundante em recursos de água mineral, com nascentes deste tipo distribuídas por sete das nove ilhas dos Açores (São Miguel, Terceira, São Jorge, Pico, Faial, Graciosa e Flores), sendo a maioria localizada em São Miguel, particularmente nas áreas dominadas pelos vulcões das Furnas e do Fogo. A caracterização das variações composicionais das descargas de águas minerais do arquipélago, especialmente na ilha de São Miguel, tem sido relevante para vários programas de monitorização. Este estudo centrou-se nas descargas de águas minerais de dois dos três vulcões traquíticos ativos de São Miguel (vulcões das Furnas e do Fogo), com especial ênfase no Vulcão das Furnas. No Vulcão das Furnas foram conduzidas sete campanhas ao longo de um ano, envolvendo a recolha de amostras em trinta e nove pontos de água, enquanto no Vulcão do Fogo foram realizadas duas campanhas de amostragem em dez pontos de água mineral, uma no inverno e outra no verão. O estudo integra a investigação das assinaturas hidrogeoquímicas, compreendendo elementos principais, menores e em traço, incluindo as terras raras, e a determinação da razão isotópica de estrôncio. Dada a importância da água da chuva como principal fonte de recarga dos aquíferos em estudo, foi realizada uma campanha para avaliar a sua composição química. A composição das águas da chuva apresenta padrões semelhantes aos da água do mar, sugerindo que os aerossóis marinhos podem constituir a principal fonte. No entanto, a presença de outros componentes, resultantes das emissões vulcânicas e poeiras minerais, destaca a complexidade do sistema e a necessidade de investigação adicional. A proximidade de um campo fumarólico revelou ter um impacto significativo na química da água da chuva. Apesar de alguns estudos anteriores baseados na composição química das águas no Vulcão das Furnas, a integração de dados relativos aos elementos menores e em traço e às razões isotópicas de Sr ainda era muito limitada. Neste contexto, a integração de dados hidrogeoquímicos permitiu revelar uma maior complexidade do sistema. As águas refletem a influência da interação com as rochas encaixantes e com gases vulcânicos. A contribuição vulcânica é evidenciada pela variação de temperatura, com águas com temperaturas entre os 90ºC e 100ºC, ou pela presença de teores elevados de CO₂ dissolvido em algumas nascentes de água mineral. A aplicação de um conjunto abrangente de ferramentas hidroquímicas possibilitou a identificação de múltiplas influências vulcânicas. A composição de algumas águas de alta temperatura tem origem no aquecimento por vapor, resultante da interação entre um gás ácido e os aquíferos mais superficiais. A composição de outras águas minerais resulta da contribuição de um reservatório mais profundo, em que águas subterrâneas mais superficiais se misturam com fluidos cloretados neutros provenientes de profundidade. As águas minerais do Vulcão do Fogo apresentam influência da dissolução mineral e da desgaseificação vulcânica. Ambos os contributos são visíveis no conteúdo dos principais iões em solução, com os catiões a evidenciarem a dissolução da rocha, enquanto a influência vulcânica é demonstrada pela presença de elevadas concentrações de SO₄2-, associadas a valores de pH muito reduzidos em águas termais, e pela elevada concentração de CO₂ dissolvido em algumas águas frias. Os principais constituintes apresentam estabilidade ao longo do tempo, sem variações sazonais significativas. No entanto, a sazonalidade é observada nos padrões dos elementos de terras raras e nas razões ⁸⁷Sr/⁸⁶Sr de algumas amostras, estando relacionada com diferentes proporções de alteração da rocha, causada pela dissolução incongruente de alguns minerais. Para além disso, a integração dos dados hidrogeoquímicos com a informação geológica de profundidade da área do Vulcão do Fogo permitiu a identificação de múltiplos sistemas aquíferos nesta região. Os padrões de desgaseificação difusa de CO₂ no solo das Furnas, monitorizados através de estações permanentes, foram também analisados. Estes padrões demonstram a influência de variáveis meteorológicas e parecem ainda sugerir uma possível correlação entre o processo de desgaseificação e as variações no nível do aquífero. Os dados revelaram também algumas alterações em comparação com estudos anteriores, indicando que os modelos de regressão aplicados para a monitorização sismovulcânica necessitam de atualização regular. Os resultados do presente estudo representam um avanço significativo na compreensão dos sistemas hidrotermais em análise. Reforçam a necessidade da aplicação de um conjunto diversificado de técnicas hidrogeoquímicas para esclarecer as reações complexas que ocorrem nos aquíferos. Estes resultados poderão ainda servir como valores de referência para análises futuras, especialmente no âmbito da monitorização sismovulcânica nos Açores, considerando que alterações nas concentrações e padrões hidroquímicos podem refletir mudanças ocorridas em profundidade, particularmente nos sistemas vulcânicos estudados.
